Evangélicos têm força crescente de submeter políticos a seus interesses, diz professor referência no tema

Para autor de livro sobre neopentecostais, relação entre o pastor e os fiéis da igreja não é passiva

Anna Virginia BalloussierRIO DE JANEIRO

Evangélicos não vivem em bolhas religiosas, então não há por que insistir na associação imediata entre “rebanho e curral eleitoral”, diz Ricardo Mariano, professor de sociologia da USP.

Fiéis não seguem a orientação pastoral de olhos fechados na hora de votar, mas a identidade religiosa pode falar alto num contexto de lutas identitárias.

“Evangélicos têm força crescente de pressionar, constranger e submeter políticos a seus interesses”, afirma o autor de “Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil”.

Para Mariano, a eleição municipal de 2020 mostrou que parte da esquerda, se preciso for, “se dispõe a emular estratégia da direita cristã, ao instrumentalizar a religião como arma eleitoral” —vide a campanha “cristão de verdade” que ajudou a desidratar Marília Arraes (PT) na disputa contra o primo João Campos (PSB), eleito prefeito do Recife.

O professor de sociologia da USP Ricardo Mariano, autor de livro sobre neopentecostais, em sua casa
O professor de sociologia da USP Ricardo Mariano, autor de livro sobre neopentecostais – Bruno Santos/Folhapress

Qual a força dos evangélicos nesta última eleição? Além da ampliação de suas bancadas parlamentares, sua força se revela na crescente capacidade de pressionar, constranger e submeter políticos para atender a seus interesses. Isso tem se sedimentado de tal forma na classe política que candidatos cada vez mais se prontificam a mobilizar moralidades cristãs. A direita leva vantagem, já que se sente muito mais à vontade para participar desse jogo.

É um bloco coeso? A união é infrequente, em razão de sua fragmentação denominacional e partidária. Tende a ocorrer, sobretudo, em torno de questões morais e corporativas e, no caso de pleitos de segundo turno, contra candidatos que acusam de ‘inimigos do Evangelho’, como fizeram com Fernando Haddad (PT) em 2018.

Os pastores jogam com as hipóteses de que, em disputas acirradas, o eleitorado evangélico pode ser o fiel da balança e de que eles podem orientar esse voto. Daí o receio de candidatos ao Executivo, de todo o gradiente partidário, da oposição pastoral. Isso reforça a reverência aos caciques denominacionais.

Evangélicos se deram bem nas urnas? Bruno Covas (PSDB) envidou esforços para garantir apoio da bancada evangélica na Câmara Municipal. Decretou resolução para acelerar a aprovação de isenção de IPTU a templos e adotou o lema ‘força, foco e fé’ na campanha. Logrou apoio de líderes evangélicos já no primeiro turno e desbancou a preferência desse segmento por Celso Russomanno (Republicanos), o candidato da Igreja Universal.

Nas capitais, dezenas de evangélicos foram derrotados. Exceções: Marquinhos Trad (PSD) em Campo Grande e David Almeida (Avante) em Manaus. Em Fortaleza, José Sarto (PDT), membro da Comunidade Videira e apoiado por Ciro Gomes, elegeu-se apesar da oposição de conservadores.

E seus partidos? O Republicanos, braço político da Universal, passou a integrar o grupo dos dez maiores partidos do país, ultrapassando, inclusive, o PT. Apesar de suas derrotas em São Paulo e Rio, dobrou o número de prefeitos [de 106 para 211] e elegeu 2.604 vereadores, cerca de 60% a mais do que em 2016, 53 deles em capitais. Elegeu os prefeitos de Vitória e Campinas e formou uma bancada de sete vereadores no Rio. Estrela em ascensão no centrão, mergulhou fundo no bolsonarismo, filiando dois rebentos do presidente, Flávio e Carlos.

O PSC [Partido Social Cristão] avançou de 86 para 115 prefeitos, mas em meio à ruína ética. Seu presidente, Pastor Everaldo o mesmo que batizou Bolsonaro no rio Jordão, está preso desde agosto.

O Recife teve a campanha “cristão de verdade” não vota em Marília Arraes. A disputa intrafamiliar na esquerda, PSB e PDT de um lado [com João Campos], PT e PSOL de outro, descambou em acusações de teor religioso. Parte da esquerda se dispõe a emular estratégia da direita cristã, ao instrumentalizar a religião como arma eleitoral e produzir posts apócrifos com fake news direcionados a ‘cristãos de verdade’.

O Instituto de Estudos da Religião mostrou que quase 13 mil candidatos valeram-se de títulos religiosos nas urnas, 24% a mais do que na eleição municipal anterior. É a tendência? Constitui estratégia pragmática para tentar viabilizar candidaturas ao Legislativo, considerando que o sistema de representação proporcional de lista aberta favorece candidatos apoiados por minorias organizadas. Mas não garante a eleição de ninguém.

A própria inflação de candidaturas tem efeitos adversos: aumenta a concorrência pelo voto dos irmãos de fé e dispersa o voto. Nas candidaturas ao Executivo é menos usual. Não faz sentido politizar a pertença a uma minoria religiosa para tentar eleger-se a um cargo majoritário, isso provoca clivagens eleitorais.

A influência evangélica é mais fraca no Executivo? Bem menor. Em 2014, Silas Malafaia, Marco Feliciano, Manoel Ferreira, Robson Rodovalho e Magno Malta [todos pastores] apoiaram Pastor Everaldo para presidente. Os evangélicos não embarcaram nesse barco furado. Distribuíam sua intenção de voto preferencialmente entre Dilma (PT) e Aécio (PSDB). Depois, Marina Silva (Rede), missionária que praticamente não contava com apoio de pastores. Após a morte de Eduardo Campos, a entrada dela no páreo, vista por muitos evangélicos como intervenção da providência divina, desidratou de vez a candidatura do pastor assembleiano. Teve 0,75% dos votos válidos.

A noção de rebanho eleitoral procede? Num contexto de lutas identitárias, a identidade religiosa pode adquirir maior relevância na orientação do voto. Contudo é problemática a ideia de que os pentecostais formam rebanhos que, manipulados por pastores, viram currais eleitorais.

A passividade irrefletida embutida nas categorias rebanho e curral não retrata adequadamente a relação entre fiéis e pastores. Eles não vivem numa bolha religiosa e nem pensam e agem somente com base em sua pertença à igreja. Aliás, muitos nem têm tal pertença: cresce o fenômeno dos ‘desigrejados’, no jargão interno.

A derrota de Marcelo Crivella no Rio é um refluxo do voto evangélico? Deveu-se à sua desastrosa administração municipal, rejeitada por 40% dos evangélicos. Para chegar ao segundo turno, Crivella se beneficiou da divisão dos candidatos de esquerda. Mas perdeu parte considerável dos votos de evangélicos que obteve em 2016 contra Marcelo Freixo (PSOL). E foi boicotado por dirigentes evangélicos que antagonizam com as pretensões hegemonistas da Universal [ele é sobrinho do bispo Edir Macedo].

No segundo turno, em desespero, tentou reeditar a polarização política, agarrou-se em Bolsonaro. Essa requentada estratégia para demonizar adversários de esquerda não colou num oponente do DEM que mantém boas relações com pastores. Em reação, Eduardo Paes, aludindo ao diabo, apelidou o bispo de ‘pai das mentiras’.

Qual a força do lema ‘irmão vota em irmão’? Ele substituiu o “crente não se mete em política” e foi criado para mobilizar o eleitorado evangélico para eleger uma bancada parlamentar própria na Constituinte. Tais como partidos, igrejas lançam candidatos oficiais, pautam suas propostas, promovem-os nas redes sociais e, à revelia da lei, até nos púlpitos.

Igrejas evangélicas adotam estratégias diferentes diante de pandemia
Igrejas evangélicas adotam estratégias diferentes diante de pandemia

O PT já recebeu o voto evangélico. Esse terreno está perdido para a direita? Desde a Constituinte, integrantes da bancada evangélica, com poucas exceções, refestelam-se no centrão e ostentam obsessões conexas às da direita cristã norte-americana: restrição de direitos a mulheres e LGBTs, proibição do aborto, combate à educação sexual. Três décadas depois, o ativismo político evangélico firmou-se como um dos pilares do campo da direita no Brasil.

Mas pastores e parlamentares evangélicos são pragmáticos e mostram-se dispostos a negociações, sobretudo com quem lidera governos. Não é bem o caso do PT, que está por baixo. E o PT não se mostra capaz de se renovar com esses religiosos, o que, convenhamos, é difícil, dada a barreira ideológica que os separa.

O discurso de justiça social, favorável a cidadãos de baixa renda, caso da maioria esmagadora dos pentecostais, pode forjar pontes possíveis. Mesmo nesse caso, é preciso correr, já que o discurso do empreendedorismo e pró-mercado mesclado com receitas de autoajuda e expectativas de intervenção divina vem conquistando muito terreno nas igrejas.

O sr. cunhou o termo neopentecostais em sua tese de mestrado. Ainda faz sentido usar essa classificação? O campo evangélico é desprovido de unidade representativa, uma Santa Sé, e propenso à cisão. Os termos empregados —evangélico, protestante, reformado, renovado, pentecostal, neopentecostal, entre outros— recobrem fenômenos correlatos muito heterogêneos, usados de forma intercambiável e confusa por diferentes grupos e mídias.

O termo neopentecostal, em sua origem norte-americana, referia-se a grupos carismáticos. No Brasil, foi adotado para identificar uma subcorrente pentecostal que rejeitou certos padrões ascéticos de comportamento, priorizou a instrumentalização do poder divino para alcançar bênçãos terrenas nesta vida.

Na esteira da teologia do domínio, difundiu a crença de que cabe aos cristãos ocupar postos de poder na política, na mídia etc., libertá-los do controle demoníaco. Com base na guerra espiritual, reativaram a demonização dos cultos afrobrasileiros e inauguraram espetaculares rituais coletivos de exorcismo.

Com o estrondoso sucesso da Universal, que encabeça o neopentecostalismo, pastores de igrejas pentecostais e, em menor grau, protestantes passaram a tentar imitá-la. Parte das diferenças teológicas e comportamentais que havia entre elas, sobretudo entre pentecostais e neopentecostais, se diluiu.

O mais importante não é usar esse ou outro termo designatório, mas, sim, compreender o que esses grupos fazem, efetivamente, em nome de Deus, da família tradicional e dos valores cristãos.

RAIO-X

Ricardo Mariano, 56
Doutor em sociologia e professor da USP, é autor de “Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil (Edições Loyola), tese de mestrado na qual cunhou o termo “neopentecostais”. É pesquisador do projeto Religião, Direito e Secularismo: A Reconfiguração do Repertório Cívico no Brasil Contemporâneo Bolsonaro e os evangélicos

O presidente eleito Jair Bolsonaro (psl) participa de culto na Igreja Batista Atitude ao lado da esposa,Michelle Bolsonaro,no Rio de Janeiro em novembro de 2018 Fernando Frazão/Agência Brasil

Joia do Cristão Com Informações da folhaUol

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