Apesar da queda do nº de processos no TJ-BA, busca pelo divórcio no isolamento cresce em escritório; terapeuta explica

Escritório de advocacia da Bahia registrou crescimento de 40% nas informações sobre divórcio. Site de buscas também registra salto exponencial na procura pelo termo.

O isolamento social imposto pelo coronavírus forçou muitos casais a conviver 24 horas por dia, o que pode estar relacionado a um aumento na procura por divórcios e dissoluções de uniões estáveis.

No período que compreende 13 a 29 de abril, a plataforma de buscas do Google no Brasil registrou um aumento de 9.900% na procura pelo termo “divórcio online gratuito”.

Houve também um aumento de 82% nas buscas pela expressão “como dar entrada em um divórcio”.

Advogado Roberto Figueiredo fala sobre aumento na busca por divórcio — Foto: Roberto Figueiredo/divulgação

Advogado Roberto Figueiredo fala sobre aumento na busca por divórcio — Foto: Roberto Figueiredo/divulgação

De acordo com o advogado Roberto Figueiredo, que atua na área de direito da família, o escritório dele registrou um aumento de 40% de pessoas buscando o divórcio.

“A gente teve esse aumento de 40% dessa demanda. A gente já constata isso. Clientes buscando o escritório para consumar o divórcio. A gente acredita que isso vai virar um dado daqui a um ou dois meses, que é o tempo de requerer esse divórcio no poder judiciário ou tabelionato”, afirmou.

O professor e psicoterapeuta Mateus de Mattos Souza acredita que, de forma geral, os casais não estão lidando bem com o confinamento forçado.

De acordo com o profissional, que trabalha com casais, os relacionamentos esbarram na dificuldade de enfrentar um momento que exige tolerância e empatia com o outro.

Mateus de Mattos Souza fala sobre dificuldade dos casais durante a pandemia — Foto: Mateus de Mattos Souza/divulgação

Mateus de Mattos Souza fala sobre dificuldade dos casais durante a pandemia — Foto: Mateus de Mattos Souza/divulgação

“O aumento dos divórcios aumento tem muito mais a ver com uma situação que os casais foram obrigados a manejar, que envolve estresse, que envolve ansiedade, frustração, e uma relação que não se construiu dando suporte a essas coisas. Quando elas foram vivenciadas, as pessoas escolheram sair dessa relação”, afirmou.

“Eu diria que é mais uma consequência da fragilidade das nossas relações, dos vínculos para passar por momentos difíceis, do que necessariamente uma consequência de problemas que já estavam ali”.

A despeito dos números que sugerem um aumento na procura por informações sobre divórcio, o judiciário baiano não apresenta dados que confirmem essa realidade.

De acordo com o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, o número de pedidos e consumação de divórcios e dissolução de união estável no estado caiu vertiginosamente durante a pandemia, em relação ao mesmo período do ano passado.

Considerando apenas os meses de abril e maio, foram 4.289 processos abertos em 2019, contra 1.094 no mesmo período deste ano, o que representa uma redução de cerca de 74%.

Em relação a processos julgados, foram 2.643 em abril e maio do ano passado, contra 206 em 2020, uma redução de quase 92%.

Para Roberto Figueiredo, esses números vão subir nas próximas semanas, quando a busca por informações se transformar efetivamente em processos.

“Há um espaço de tempo de colheita de documento e tentativa de conciliação, muita gente vendo guarda, partilha de bens”, disse.

O advogado lembra, ainda, que há uma dificuldade em realizar o pedido por causa do isolamento social.

“Há uma dificuldade de realizar esses divórcios de maneira presencial, porque essas pessoas não conseguem falar com o advogado, nem realizar o divórcio presencialmente”, afirmou.

“Nós estamos em uma situação de isolamento, então as pessoas não estão indo ao cartório para realizar o divórcio”.

Entretanto, o advogado alerta que não é possível realizar o divórcio online. No direito brasileiro, ele só é possível por sentença judicial ou por escritura pública.

A diferença, neste momento de pandemia, é que alguns tabelionatos estão admitindo o recebimento da documentação do divórcio por e-mail.

“O tabelionato recepciona essa documentação e elabora a escritura pública do divórcio, quando ele é consensual. O advogado entra em cena e realiza o divórcio sem a presença física das partes”, disse.

O advogado Roberto Figueiredo faz outro alerta: o confinamento provocou um aumento nos casos de violência doméstica, como mostrou o G1 com dados do mês de abril.

Segundo ele, os dois últimos clientes que procuraram o escritório dele em busca do divórcio relataram casos de violência doméstica.

“Essa semana, os dois clientes que eu recebi no escritório, uma mulher pedindo a dissolução de união estável e um marido pedindo o divórcio, essas duas pessoas estão em situação jurídica de violência doméstica”, disse.

“A mulher tem uma queixa de violência doméstica. O marido também tem uma queixa de violência doméstica contra ele”.

Assim como influenciou o término de relacionamentos, o confinamento provocado pelo coronavírus também pode ser uma chance para os casais fortalecerem o laço de união.

É o que acredita o psicoterapeuta Mateus de Mattos Souza, que enxerga a possibilidade de os casais atravessarem esse momento do estresse provocado pela pandemia.

“A separação pode ser uma reação a toda essa situação, pode ser uma decisão que já vinha sendo considerada pelos parceiros, mas que, nessa situação, se tornou mais premente. Mas também pode ser uma grande oportunidade para que um casal desenvolva um repertório promotor de saúde para a convivência com experiências aversivas, dolorosas, frustrantes”, afirmou.

“Me parece também um momento que permitirá que uma relação se fortaleça bastante, que seja capaz de suportar grandes estresses e, ainda assim, persistir, perseverar”.

Fonte:G1Bahia

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